quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Quando se chega ao fundo do poço
ao final de uma queda livre
o que está lá?
o que se pode encontrar?
Os sonhos que você deixou cair 
no caminho,
as lágrimas que você chorou 
no percurso,
os pedaços de você que se partiram 
nas batalhas,
os sorrisos que você fingiu
em público,
os gritos abafados,
e os desabafos gritados ao vento.
Sua alma em farrapos
e as vestes de todas as suas festas,
até da mais bonita das festas,
até o mais lindo vestido vermelho.
Todo o vinho bebido,
e toda água que lavou seu rosto vermelho.
Toda máscara que usou para esconder a tristeza
e toda maquiagem que não usou por estar triste.
A vergonha e a decepção de ter caído.
A coragem de todas as vezes que tentou levantar-se.
Todas as vitórias.
Todas as derrotas.
Tudo estará lá,
ao final da queda livre,
no fundo do poço.
Fim."

Lua Rocha, por ela mesma.
Só sobrou ela.
10/ago/2014
Paradoxo.
É querer não querer mais.
É viver morrendo de saudades
nessa exagerada escassez de você.
É esticar os braços e chegar
cada vez mais perto da tua ausência,
encontrar apenas o desencontro,
encantar-se com o desencanto
de não te encontrar onde você está.
Paradoxal essa sensação
de querer fugir para perto
de onde você não está,
de sentir tua frieza queimar,
arder cada fibra do meu ser!
Sentir meu calor derreter o gelo
que tentei fingir,
aquecendo a frieza que vem de você,
mesmo sem você perceber...
Paradoxo
é chorar de tanto rir,
e não conseguir mais rir, então,
pois o choro roubou a cena...
É sentir na língua o amargo
de chamar seu nome doce
como o absinto...
É querer esse absinto todos os dias,
é rejeitar o mel em favor de alguns minutos
da tua doçura amarga.
É saltar no abismo desconhecido
dos teus braços,
cair até o infinito mais profundo
da tua cama,
dormir o sono da morte
e viver eternamente no teu abraço.
Ou na saudade de te abraçar...
Paradoxal essa saudade
de querer não te querer mais.

Lua, sob a lua. 17/08/2014

terça-feira, 1 de julho de 2014

E a Lua estava vermelha de raiva

vermelha do sangue nas veias

e nos olhos

vermelha de paixão

vermelha de vergonha

vermelha da guerra e do amor...




(A Lua, 15/04/2014, amanhã também, quem sabe...)


"Quatro paredes, o chão e o telhado.
Nada de portas, nada de janelas.
E tudo que ela precisava era estar em outro lugar,
Fora daquelas paredes, além daquele telhado.
Além dela mesma, 
Pois ela mesma era as paredes, o telhado e o chão.
Ela estava tancada em si mesma."

Lua Rocha, 18/12/2013, sufocada)

"Gosto de ficar assim
(escre)vendo a vida a passar
diante dos meus olhos
(revi)vendo a vida a passar
entre os meus dedos
(sor)vendo a vida a passar
entre os meus lábios
vendo a vida passar
só vendo."

08/05/2013

domingo, 25 de maio de 2014

Minha alma está vestida com roupas de festa, ainda que o casaco seja emprestado. É que estou voando para realizar um sonho!
Eu gastaria porções de coragem todos os dias, se o céu fosse o meu limite. Desfilaria sapatos doados, sandálias baratas e até pés descalços, se a passarela fosse sempre um país diferente. Levaria na mochila as roupas do ano passado, e voltaria vestida de novas certezas, novas verdades, novos começos...
Sentir novos cheiros, ouvir novos sons, pisar outros solos, sentir novos sabores, admirar novos contornos, novos lugares. 
Conhecer novas pessoas, apertar outras mãos, ouvir outras línguas, outras vozes, novos sorrisos. Sentir o calor do sol e dos abraços no clima de novos países e novas amizades. 
Andar cercada de estranhos, sendo eu também uma estranha entre os outros. Descobrir nesses estranhos o poder da gentileza, da hospitalidade, de um simples sorriso. Perceber que esses estranhos são também meus semelhantes...
Voei e realizei um sonho. Não voltei me sentindo melhor que ninguém: voltei me sentindo melhor que eu mesma, como jamais imaginei que poderia ser. Voltei me sentindo mais forte do que quando saí, pois percebi que posso fazer o que eu quiser! Percebi que o céu não é o limite: não existem limites!
Há ainda muitos outros sonhos, outros lugares, outras verdades para vestir. 
Que meus pés possam sempre desfilar nas nuvens!

26/11/2013

sábado, 24 de maio de 2014

Estes teus olhos, tão meus
Andam por aí sem mim
Fazem questão de sair e me deixam aqui
E é sempre a mesma coisa
Eles saem e quem vaga sou eu
Vago pelas esquinas espreitando esses olhos
Por onde eles andam
Por onde eles param
Mas eu vago sem ao menos sair pela porta
Nem sequer chego a pensar em sair
Fico aqui
Sou eu quem sempre fica
E seus olhos vão
Não são mais tão meus assim
Não querem me ver
Eu olho para eles quando eles chegam
E eles ainda estão por aí
Talvez eu ainda saia em busca desses olhos
Hoje tão seus
Talvez eles voltem
Talvez eu volte
Talvez não
Talvez eu não os encontre mais
mas
Talvez outros olhos me encontrem
E por lá eu me perca
Sei não
Talvez...

06/11/2011, Domingo à tarde. Só.

sábado, 8 de fevereiro de 2014


"Quantas marcas cabem em um coração? 
Quantas dores, quantos desamores?
Quantos sonhos, quantas fantasias, quantas viagens?
Quantas despedidas cabem em um coração?
Quantas partidas, quantas idas, quantas vindas?
Quantas vidas?
Quantas mortes cabem em um coração?
Quantos arrependimentos, quantos orgulhos feridos?
Quantas lágrimas cabem em um coração?
Quantos sorrisos amarelos, quantos dias cinzas?
Quantas mágoas, quantos nós, quantas feridas?
Quantas curas?
Quantos sofrimentos cabem em um coração?
Quantos abandonos, quantas incertezas?
Quanta saudade cabe em um coração?
Quantos mistérios, quantas belezas, quantos recomeços?
Quanta alegria cabe em um coração?
Quantos corações cabem no meu peito?
E no seu?"

(Lua Rocha, 08/02/2014, contemplativa)