domingo, 29 de julho de 2012

Lembranças de infância em Misericórdia

As nuvens tinham formas de animais.
As estrelas pareciam estar mais perto...
Parecia ser possível tocar o céu.
Tudo parecia ser maior: as casas, as árvores, as ruas... Até o mar parecia ser maior!
O cheiro era inebriante. Cheiro de terra, de mato, cheiro de vida!
Todos os cheiros eram perfumes. Cheiro do orvalho sobre a terra, cheiro de caju, cheiro de castanha torrando na assadeira, cheiro de maresia, cheiro do gado solto pelas ruas, cheiro de fumaça à noite, pra espantar mosquito... Cheiro de "venda"...
A alegria era contagiante. Cada manhã era mais gostosa que a anterior. Era mais um dia que chagava, trazendo consigo um inigualável frescor que comungava com a radiância do verão. A proteção da varanda rústica não permitia que houvesse briga entre a brisa e o sol. Eles andavam de mãos dadas: às vezes o sol aquecia e logo depois a brisa refrescava.
Andar com os pés no chão, em contato com a terra, era como estar ligados à nossa matéria-prima, nossa origem. As ruas sem calçamento nos afastavam de qualquer vestígio de cidade grande.
O pão enrolado em papel de embrulho, amarrado com barbante, dava a real impressão do atraso necessário à verdadeira paz. A falta da tecnologia da balança eletrônica nos obrigava a ver balanças antiquíssimas, mas belíssimas aos nossos infantes olhos.
E o gosto do pão... Nenhum pão tinha o sabor igual. Aliás, nada era igual, nada tinha o mesmo sabor. A manga saboreada sem cerimônia, sujando a boca, o rosto, as mãos e a roupa... A água de coco era a mais gostosa. As carambolas, as goiabas, os abacates, até a cica de caju tinha a sua magia! O suco de caju era o mais esperado, tinha (e tem até hoje) o gosto do verão! A cana era a mais doce, os ingás eram suculentos, o jamelão tinha uma cor magnífica!
O porto era o lugar mais perfeito do planeta. Ir ao porto à tarde era o momento mais esperado, o grupo ia fazendo algazarra desde a casa até chegar lá, onde era o paraíso na terra. Ver o pôr-do-sol no porto era, era... indescritível. A volta sempre era mais silenciosa, o cansaço voltava junto conosco...
O cair da tarde trazia consigo uma orquestra!
O silêncio se misturava com o insistente canto das cigarras, que pareciam estar reunidas em assembleia geral.
Era delicioso o anoitecer. A noite parecia estar envolta em mistérios, criados pela nossa mente e ao mesmo tempo insondáveis...
Hoje nada mais é igual. Nem os cheiros, nem as cores, nem os sabores. O pão não é mais enrolado em papel de embrulho rosa ou verde. As nuvens não têm mais a forma de animais. Tudo está diferente...
Só mesmo o cheiro da castanha assando na fogueira nos traz de volta àquele passado tão gostoso, inesquecível.
E eu descobri que não existe lobisomem.

Lua Rocha, 05/04/2007

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